Seminário Internacional do Café debate gargalos no Porto de Santos, custos bilionários e impactos da economia global sobre as exportações brasileiras
A exportação de café brasileiro voltou ao centro das discussões do agronegócio nesta terça-feira (20), durante o segundo dia do XXV Seminário Internacional do Café, realizado no Santos Convention Center. O principal foco dos debates foi a urgente necessidade de expansão da infraestrutura do Porto de Santos diante do crescimento da demanda logística e do aumento das exportações agrícolas brasileiras.
Representantes do setor portuário, exportadores, economistas e lideranças do agronegócio alertaram para os impactos financeiros provocados pelos gargalos operacionais no principal porto do país, responsável pela maior parte dos embarques de café brasileiro para o exterior.
Segundo os participantes do seminário, a falta de investimentos em infraestrutura vem limitando a competitividade do Brasil no comércio internacional justamente em um momento de crescimento da produção agrícola e aumento da demanda global por commodities.
Porto de Santos enfrenta pressão histórica
Durante o painel sobre infraestrutura e logística, o presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, criticou a lentidão histórica na execução de projetos estruturais considerados essenciais para ampliar a capacidade operacional do complexo portuário.
Entre os principais pontos debatidos esteve o projeto do Tecon Santos 10, que pode ampliar significativamente a movimentação de cargas no porto. Segundo Pomini, o atraso em obras estratégicas gera impactos diretos sobre toda a cadeia exportadora brasileira.
O diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), Mário Povia, destacou que o crescimento da produção agrícola brasileira vem acontecendo em um ritmo muito superior à capacidade logística disponível no país.
Já representantes do setor marítimo afirmaram que os terminais brasileiros operam atualmente próximos do limite máximo de ocupação. Dados apresentados no evento apontam que parte dos principais terminais trabalha perto de 90% de utilização dos berços de atracação, reduzindo eficiência operacional e aumentando atrasos.
Prejuízos bilionários preocupam exportadores
Um dos pontos de maior impacto apresentados no seminário foi o custo financeiro provocado pelas filas de navios e congestionamentos no Porto de Santos.
Segundo estudo apresentado pela Neowise Consultoria, o custo com demurrage — multa paga por atraso e sobreestadia de navios — alcançou R$ 775,3 milhões apenas em 2024. Desde 2019, o prejuízo acumulado já soma R$ 3,8 bilhões.
O mercado entende que esses custos acabam afetando diretamente a competitividade das exportações brasileiras, inclusive do café, que depende fortemente da eficiência logística para manter presença nos principais mercados consumidores globais.
Além disso, o aumento dos gargalos operacionais também pressiona fretes, reduz previsibilidade e aumenta os riscos comerciais para exportadores e tradings.
O que isso significa para o produtor de café?
Para o produtor brasileiro, os problemas logísticos no Porto de Santos têm impacto direto sobre preços, competitividade e fluxo de exportações.
O Brasil continua sendo o maior produtor e exportador mundial de café, mas especialistas alertam que o crescimento da safra e da demanda internacional exige uma infraestrutura mais eficiente para evitar perdas financeiras e gargalos ainda maiores nos próximos anos.
Custos adicionais de frete, atrasos nos embarques e congestionamentos acabam pressionando toda a cadeia cafeeira, desde exportadores até cooperativas e produtores.
Outro ponto importante destacado durante o evento é que o Brasil ainda captura uma parcela relativamente pequena da receita global gerada pelo café, mesmo liderando a produção mundial.
Segundo representantes da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), ampliar competitividade, agregar valor e fortalecer a marca “Cafés do Brasil” são pontos considerados estratégicos para aumentar a rentabilidade do setor.
Cenário global também pressiona o agronegócio
O seminário também discutiu os impactos do cenário macroeconômico internacional sobre o agronegócio e o mercado do café.
O economista Pablo Spyer destacou que as tensões no Oriente Médio continuam elevando os preços do petróleo, combustíveis e fretes internacionais. O aumento dos custos logísticos e energéticos acaba influenciando diretamente a inflação global e o fluxo do comércio mundial.
Segundo o analista, o avanço das tensões geopolíticas também afeta o transporte de fertilizantes e insumos agrícolas importantes para o Brasil, como amônia, fosfato e potássio.
Ao mesmo tempo, o mercado acompanha desaceleração econômica em parte do mundo, enquanto o consumo global de café continua crescendo de forma consistente.
Mesmo diante das incertezas globais, especialistas presentes no seminário demonstraram otimismo com o potencial da cafeicultura brasileira nos próximos anos, principalmente diante do aumento da demanda mundial e da possibilidade de expansão do consumo em mercados asiáticos como a China.
Perspectiva para os próximos anos
O setor cafeeiro brasileiro deve continuar pressionando por investimentos em infraestrutura logística, principalmente no Porto de Santos, considerado peça fundamental para o crescimento das exportações nacionais.
A expectativa do mercado é de que o aumento da produção agrícola brasileira continue exigindo modernização dos terminais portuários, ampliação da capacidade operacional e melhorias no fluxo de cargas.
Além disso, o setor também busca fortalecer a imagem internacional do café brasileiro, aumentar competitividade e ampliar a participação do país na receita global do segmento.
Enquanto isso, logística, clima, dólar e cenário geopolítico seguem entre os principais fatores monitorados pelo mercado internacional do café.
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